sexta-feira, 31 de maio de 2019

Depois do fim da Arte
(reflexões sobre escritos de... a propósito de...)

 Moderno/ Pós-Moderno/ Contemporâneo

 Quase simultâneamente e sem conhecimento um do outro o historiador de arte alemão, Hans Belting (1935) e o filosofo e critico americano, Artur Danto (1924-2013) publicavam textos sobre o fim da Arte. Em textos dos anos sessenta Artur Danto havia já assinalado o fim da Arte, apesar disso continuou a fazer uma crítica radical da natureza da arte do nosso tempo. 
 Depois do fim da Arte apresenta a primeira reformulação, publicada nos anos oitenta,  e mostra como por detrás do eclipse do expressionismo abstracto a Arte se tinha afastado irrevogavelmente do curso narrativo traçado por Vasari desde o Renascimento.
 De modo que o que devemos fazer é sinalizar um novo caminho, para uma nova crítica, capaz de nos fazer entender a Arte nesta era pós-histórica.
 Um tempo em que a crítica não é capaz de explicar a diferença entre uma obra de Andy Warhol, e o produto comercial em que ela se inspirou. 
 Se trata pois de esclarecer uma série de afirmações tão polémicas como consensuais, sobre um tema fundamental da estética e da filosofia de arte contemporâneas. Considerações sobre a Pop, ou "arte do povo", ou popular, sobre o futuro dos museus, e sobre a contribuição teórica de Clement Greenberg (1909-1994) que há muito escreveu uma crítica fundamentada sobre o expressionismo abstracto dos anos cinquenta.
 A conclusão de que já não é possível aplicar as categorias tradicionais da estética à arte contemporânea, e que pelo contrário é necessário centrar -nos numa  estética que possa trazer luz sobre a característica mais surpreendente da arte actual, a de que tudo é possível. 

sábado, 25 de maio de 2019

A grande divisão

  Antes do séc.XIII o termo "artista" e "artesão" eram usados interligados, artista podia ser um sapateiro, um alquimista ou um estudante de artes liberais, nem sequer existiam estes conceitos, mas apenas profissões que usavam uma "técnica" ou uma "arte", para produzir poemas, pinturas, esculturas, ou "artefactos".
 Mas no final do séc XIII, artista e artesão começaram a ser usados como termos antagónicos, artista era agora o criador de "belas artes", enquanto o artesão passava a ser o construtor de meros objectos  funcionais ou de entretenimento.
 Esta alteração não foi apenas institucional mas também de poder e de género. A chave desta alteração foi a substituição dum  patronato, por um mercado e pela criação de um  novo público de classe média.
 Mas claro uma das ideias deste novo mercado era que o dinheiro e a classe, não eram determinantes na apreciação das artes. Claro que para elevar certos géneros de arte ao patamar espiritual exigido pelas "belas artes" e os seus criadores a heróis-génios, era preciso relegar outros géneros a um nível de banalidade, de mera funcionalidade ou decoração, e os seus criadores a  simples fabricantes.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

  A  divisão artesão/artista

  Hoje dizemos  que tudo pode ser  "arte", e prosseguimos em frente, sem reflectir como chegámos a este lugar comum. 
 Uma razão para esta confusão do que conta ou não como arte, é a de que o "mundo da arte", fez coincidir a arte com a vida, "fim da arte", porque a partir do momento em que um objecto de consumo era desviado das prateleiras dum supermercado, para o espaço  duma galeria de arte, caia por terra a transcendência da arte, que perdia assim uma das suas razões de existência . 
 Gestos desta natureza multiplicaram-se até à banalidade na reciclagem de objectos instalações que surgem, entre a inocência e a estranheza,  em galerias e museus, ou em salas de concertos, com a inclusão de ruídos da rua, fitas magnéticas com "sons reais" ou electrónicos, em composições musicais, ou temas  da cultura popular na literatura, esbatimento de fronteiras entre géneros artísticos.
 A entrada de tão estranhos, quanto banais objectos, no mundo das "belas artes", levou alguns críticos a vaticinar o fim da arte, da "música séria" ou da literatura. Outros alinhando com as teses pós-modernistas, concordam que o sistema das artes está morto, mas convidam-nos ainda assim a dançar sobre a sua sepultura à espera de uma nova libertação.
 Se queremos compreender a explosão do que conta como arte e a reunião da arte com a vida, temos de entender de onde surgem as instituições e as ideias modernas sobre as "belas artes".
 O moderno sistema das artes não é uma essência das coisas, ou uma imanência natural dos factos, mas uma criação, uma coisa que nós fizemos.
 A arte como a entendemos é uma criação europeia com cerca de duzentos anos, procede dum outro mais antigo de centenas de anos, esse mais utilitário, sem distinção clara entre artesão e artista, e que vigorou até à emancipação destes, numa elevação de estatuto social, que permitiu às elites usufruir dos bens culturais claramente diferenciados, entre alta e baixa cultura.
 O que alguns recearam como a morte da arte, pode afinal ser apenas, o fim de um sistema social construído durante o séc. XIII.
 Como tudo o que emergiu durante as "Luzes", a ideia europeia de "belas artes" pretendeu ser universal, e os exércitos europeus, missionários e comerciantes, intelectuais tudo fizeram para a manter assim.
 Académicos e críticos sublinharam isso mesmo para as culturas visuais dos Chineses ou Egípcios, e quando o sistema colonial estava estabelecido, os artistas europeus  descobriram que os povos colonizados em África, nas Américas e na Ásia tinham algo a que chamaram "artes primitivas".
 No século das luzes o prazer  da arte foi dividido em requintado prazer estético, por um lado, e prazer como mero divertimento, por outro. Prazer desinteressado afastado do contexto , versus prazer investido de função e construção, Esta divisão foi revolucionária no campo das artes, no espaço de cem anos um modelo de construção foi substituído por um modelo de contemplação. Este termo inicialmente aplicado a Deus, passou a ser motivo de investimento das elites culturais como meio de elevação espiritual, de diferenciação refinada do gosto e da alma.
 Por causa desta revolução conceptual, cujas instituições ainda governam, as nossas práticas culturais
são precisos esforços redobrados para avaliar a profundidade das rupturas ocorridas. Não foi apenas a substituição duma concepção de arte por outra, foi sim a substituição de práticas e de instituições por outras.
 No velho sistema das artes que juntavam no mesmo "saco" objectos que actualmente separamos como diversos, artes e artesanato junto a curiosidade cientifica, "gabinetes de curiosidades", substituidos por museologia moderna, em vez de concertos acompanhando missas, concertos em salas  de audição.
 Outrora artistas e artesãos reuniam esforços para produzir a encomenda, que estava destinada a um fim específico, na arquitectura, no fresco no vitral, no cerimonial religioso ou profano, na audição ou leitura dos textos, tudo isso foi substituído pelo artista criador, não apenas  mero construtor, mas inventor das próprias regras, que surge individualizado como autor.
 Até Leonardo assinou um contrato para a Virgem do Rochedo, especificando a cor do vestuário da virgem, a data da entrega e a garantia de restauro. Muita dessa arte era uma cooperação de várias personagens, longe da moderna ideia de artista criador de obra sem destino, para consumo estético em si mesma, autónoma, embora exibida em feiras, galerias comerciais, revistas de arte, leilões especializados e objecto de adoração coleccionista e especulativa, consumida por massas avidas de entretenimento, ou então no silêncio reverencial dos museus ou salas de concerto, (a suivre).

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A Invenção da Arte

 Num tempo de confusão sobre o que é a Arte, sobre o seu papel no mundo, gostava de fazer uma breve reflexão acerca do "conceito da ideia de Arte".  O meu desejo, é colocar, aquele recente conceito, num contexto histórico, digamos entre o séc. XIII e os nossos dias.
 Quando num museu deparamos lado a lado com obras de artistas modernos ou contemporâneos, com obras de escultura africanas ou de outros continentes que não o europeu, sinto um incómodo, provocado pelo choque que objectos oriundos de contextos diversos, quer na sua intenção funcional quer na sua função estética, serem assimilados por um olhar desprevenido, que a todos eles atribui o mesmo conceito de obra de arte. 
 Não me choca a recente migração de objectos como máscaras, figuras esculpidas, artefactos, instrumentos de música, ou outros, fizeram dos museus de antropologia colonial, para os círculos restritos do gosto estético contemporâneo, levado a apreciar muitas vezes num mesmo plano, essas distintas manifestações simbólicas. O que me espanta é o desconhecimento de que na origem desses objectos, nos locais da sua produção original, o conceito de obra de arte não existir, nem sequer o hábito de os contemplar como arte, mas sim de serem objectos com cargas mágicas e rituais, inseparáveis do seu meio, veículos de comunicação com o "além", nos antípodas do seu consumo actual, como obras de arte em si mesmas, comparáveis ou mesmo estando na origem de movimentos estéticos europeus, hoje já distantes, no início do séc.XX, como o cubismo, por exemplo.
 Desligadas como estão hoje, as funções úteis, das estéticas, nas obras de arte ocidental, que permitem consumir per si, qualquer objecto candidato à apreciação, libertando assim do campo da interpretação o factor "para que é que serve", resta apenas na maior parte das vezes a evidência de que não fazem já parte do todo, na sua relação simbólica, e até mesmo no seu direito à existência.
 Pelo contrário aquela migração  milagrosa dos objectos ritualizados, sujeitos ao uso em cerimónias de iniciação religiosa, para o espaço do museu, enquanto instituição criada num contexto histórico bem definido, quando para Arte, não havia uma palavra africana, e também não existia nem a ideia de coleccionismo, mercado, ou exposição pública.
 Depois de terem cumprido a sua função, esses objectos eram guardados, longe da vista profana, até serem de novo necessários à lógica secreta dos rituais.
 Por isso o hábito de os colocar ou evocar em espaços museológicos modernos, ou em retóricas discursivas, faz-me subitamente perceber, que o conceito de arte, por nós hoje aplicado, é no mínimo problemático.
 Uma das conclusões que podemos tirar para perceber o que acontece quando objectos rituais provenientes de culturas de  outros continentes, são transformados em arte no moderno sentido do termo, é que instituições como museus, salas de concertos, ou currículos literários, são essenciais para a formação e transformação de "coisas", em objectos de arte, e que isso se processa desde o séc. XIII, quando se iniciou aquilo a que podemos chamar,  "a invenção da arte", voltarei a isto em breve.

domingo, 27 de maio de 2018

Sexo e sexualidades: Representação do Género/ Sumário

 Desenvolvimentos nos estudos acerca das questões ligadas ao Género desde os anos setenta do século XX, alteraram a forma como a arte do passado era interpretada.
 Historiadores de arte ligados ao Feminismo reinterpretaram os currículos de mulheres artistas e exploraram as diferenças nas representações homem/mulher revelando assimetrias de poder.
 O Retrato e o Nu  puderam assim ser interpretados no contexto de uma trama social de privilégios patriarcais. Através dos estereótipos das características de Género a Arte mediou e reforçou as estruturas patriarcais (a dominação do homem sobre a mulher)
 Os artistas reagiram com trabalho que seguia de perto a agenda feminista de forma a alterar os valores dessa assimetria de poder patriarcal.
Estudos teóricos do pós-feminismo,  revelaram a complexidade crescente da identidade feminina. A fragmentação da ideologia feminista criou oposição entre fundamentalistas feministas e pragmáticas prosseguindo a agenda dos direitos iguais entre os sexos.
 A arte contemporânea explora extensivamente a ambiguidade e perspectivas alternativas do género, sexo e sexualidade.
Nos anos noventa estudos abordaram questões acerca da estabilidade tradicional das diferenciações de Género, e aprofundaram a compreensão da construção da identidade, de género, sexualidade e representação do corpo.
 A perspectiva gay introduziu novas teorias que questionaram as normas tradicionais da representação do antigo paradigma das configurações de Género.
Muitos artistas apropriaram-se destas questões para explorar  o potencial do corpo humano sensualmente ou como espectáculo per formativo.
 Mais recentemente o género é visto como outras distinções sociais como a Classe, Raça ou Identidade, envolvendo os estudos pós coloniais.
 Actualmente os artistas e os historiadores de arte continuam engajados nestas temáticas (muitas delas ainda com grande potencial  de fractura).

sábado, 26 de maio de 2018

Psicanálise arte e o eu escondido/sumário

Os estudos de Freud acerca das desordens mentais e das suas manifestações físicas forneceram os fundamentos para as teorias psicanalíticas aplicadas à História de Arte.
Na sua exploração da psique (a mente), do seus pacientes, identificou o inconsciente como um repositório de recalcamentos das experiências durante a infância.
Freud identificou o complexo de Edipo como o tempo em que a criança resolve o seu relacionamento com os seus pais, e descobre a sua identidade sexual.
A sua teoria da sublimação reconhece que estas energias reprimidas podem ser directamente canalizadas e ultrapassadas (resolvidas) quer nas práticas artísticas quer na cultura em geral.
Klein e Lacan desenvolveram as teorias Freudianas na direcção da diferenciação da identidade sexual durante a infância.
Stokes e Fuller exploraram a importância da relação mãe/filho no contexto do processo criativo.
Depois as teorias feministas criticaram o patriarcado implícito nas teorias de Freud e Lacan.
Irigaray e Cixous contribuíram pelo seu lado para o desenvolvimento de uma identidade feminina, emancipada do espectro patriarcal referido.
Julia Kristeva parte da psicanálise para a aceitação ou objecção com reflexos directos na Filosofia de Arte e na Estética.
Chasseguet-Smirgel identificaram os caracteres particulares nas patologias analisadas à luz duma sua relação com as categorias fundadoras da psicanálise.
Foram muitos os artistas, críticos e teorizadores que se apropriaram de aspectos da teoria psicanalítica e a verteram directamente nos seus processos criativos..
Os primeiros terão sido os surrealistas, depois os Chapmans, Grayson Perry, Gilbert & Georg, Tim Noble e Sue Webster, entre outros, cuja obra pode ser interpretada nos seus paradigma à luz das teorias  psicanalistas.
Contudo a herança central das ideias desenvolvidas por Fred, foi o seu questionar do iluminismo positivista, no que á sua subjectividade diz respeito e à sua ideia de progresso linear e constante.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Semiótica e pós estruturalismo/sumário

A disciplina da semiótica (o estudo dos signos) foi fundada por Ferdinad de Saussure e Charles Sanders  Pierce como modelo para a relação entre o significado (o signo) e o significante (a ideia ou conceito) por um lado e o objecto por outro.
Embora desenvolvendo dois modelos diferentes, os seus estudos estabeleceram aproximações para a exploração da estrutura e significado dos signos linguísticos, a sua influencia foi contudo muito grande na historia de arte contemporânea. A estrutura dos signos foi desenvolvida como uma relação  por vezes arbitrária entre significante e significado e o objecto, outras vezes essa relação definiu-se como estável, mas ambas como questão de quanto próximo ou longe estaria o signo da realidade.
A percepção dessa relação variou entre o idealismo (longe da realidade) e o realismo (perto da realidade).
A arte exemplificou diferentes modalidades e alterou a estabilidade do sistema dos signos, complicando ao máximo  a sua relação.
Jacques Derrida e Roland Barthes, poe exemplo com a teoria pós estruturalista  argumentaram por uma completa instabilidade entre signos e significados..
Derrida  desenvolveu uma aproximação desconstrutiva, que explora as escolhas dos signos usados num texto ou discurso de maneira a revelar significados omitidos ou subentendidos. O conceito da diferença entre pares de signos como homem/mulher, bem/mal, etc, subjacentes como relações de poder  dentro dos sistemas de linguagem, nos textos, nos discursos e nas imagens.
Michel Foucault estudou as dinamitas de poder nos universo social e politico as suas estruturas revelaram  a dependência entre os sistemas de conhecimento , o significado e o poder. As linguagens figurativas como as metáforas são usadas para estruturar as ideias.
Alguns teóricos exploraram o contexto social e a implementação do  sistema de signos argumentando que o seu uso podia contribuir para a alteração do significado.
A importância dos estudos semióticos e pós estruturalistas na aproximação aos signos e seus significados é diversa no seu uso, quer no feminismo,  no pós modernismo ou nos estudos pós coloniais.